A análise cultural de Freud desenvolve-se no entrelaçamento e no conflito entre as ligas da civilização e as forças instintuais, o que me faz entreluzir o sufocante figurino do sujeito(1) contemporâneo, alinhavado por autorregulação e marcas de rompimentos. Sem fibra suficiente para manter a sedutora fulguração na polis mediática do contemporâneo, dá- se entre as vestes e este sujeito um puxa e estica indiferenciado, cuja pressão não raro faz eclodir um tilt que poderá adorná- lo com a sedativa máscara da indiferença ou enfileirá- lo na malta da rebeldia pró- sistema, aquela incessante onda que o capitalismo cultural engendra, vista por tartufos como destruição criativa. Ou ainda levá- lo à corrida radical: “Ai de mim!”, disse o rato, “o mundo está ficando menor a cada dia. No começo, era tão grande que fiquei com medo. Continuei correndo, correndo, e fiquei contente quando por fim vi muros à grande distância, à direita e à esquerda, mas esses altos muros estreitaram- se com tanta rapidez que eis– me já na última câmara, e lá, no canto está a ratoeira em que devo cair”. “Mas você precisa apenas mudar de direção”, disse o gato, e o devorou. (Kafka apud Bloom, Abaixo as verdades sagradas. 2012, Cia de Bolso, p. 198. SP).
- (1) Noção que avança sucessivamente de Freud a Lacan, vindo a ocupar o plano central na teoria lacaniana. Para a psicanálise, sujeito continua a ser uma importante questão conceitual, pois sua apreensão advém de ressonâncias e não de qualquer ordenação essencial.
Arte e Psique – um poder sem majestade. Luiz Palma. Pgs 21 e 22. Editora Escuta, São Paulo, 2019.

